Identidade – Cefojor https://cefojor.co.ao Centro de Formação de Jornalistas Thu, 29 Oct 2020 15:08:44 +0000 pt-PT hourly 1 https://wordpress.org/?v=5.6.4 Televisão e o poder suave na construção da identidade (Conclusão) https://cefojor.co.ao/2020/10/29/televisao-e-o-poder-suave-na-construcao-da-identidade-conclusao/ Thu, 29 Oct 2020 15:08:44 +0000 https://cefojor.co.ao/?p=5930 Por Augusto Alfredo – Mestre em Comunicação

Se olharmos para o volume ascendente da cooperação alcançada entre Angola e o Brasil, facilmente poderemos apreender a importância e o poder de influência que a produção audiovisual do Brasil teve e tem na promoção da imagem e da cooperação entre os dois países. E o professor e pesquisador de assuntos relacionados à África, Pio Penna Filho, reconhece a performance do audiovisual no melhoramento desse relacionamento: “Nossos meios de comunicação têm importância fundamental para melhorar isso”. E mais adiante ele explica: Nenhum outro país tem tanta receptividade à cultura brasileira. Inclusive, também em relação ao idioma, há compreensão mútua. Temos tudo para que essas relações se aproximem mais. Nossas músicas chegam a Angola desde a década de 1980. Nossas novelas, também” (FILHO, 2017).

A produção televisiva brasileira foi a expressão mais impactante nos contactos entre os dois povos após o acto de reconhecimento do Governo Angolano pelo Brasil em 1975. Foi através dos produtos da indústria cultural, que a maioria de angolanos tomou conhecimento da realidade cultural do Brasil e por via disso criou empatia com os produtos brasileiros. Basta ver que foi depois das telenovelas, que chegaram as demais empresas, que acabaram incrementando as trocas culturais e comerciais com Angola. Na cultura, como na economia, Angola mantém laços sólidos com o Brasil. Três canais de TV brasileiros (Globo, Record e, mais recentemente, Band) transmitem sua programação no país. A produção audiovisual angolana encabeçada pela Televisão Pública de Angola tem, por seu turno, procurado lançar no mercado produtos de sua criação e exportá-los para os países da CPLP e outros mercados. Por exemplo, as novelas Jukulomessu (Abre Olhos) e Windeck (Subir na vida tem preço), foram transmitidas em Portugal, França, Nigéria, Gana, Costa do Marfim, Canadá, Cabo Verde e Reino Unido.

As duas novelas foram indicadas como melhor telenovela em 2013 no International Emmy Award, classificação obtida igualmente pelas novelas “Avenida Brasil” e “Lado a Lado”, ambas da Rede Globo de Televisão. Jukulomessu e Windeck foram também exibidas pela TV Brasil. Num cenário marcado pela globalização, “a narrativa ficcional televisiva surge como valor estratégico na criação e consolidação de novas identidades culturais compartilhadas, configurando-se como uma narrativa popular sobre a Nação” (LOPES, 2004, p.121). O Soft Power apresenta-se como vontade manifesta de um actor internacional de projectar poder pela via da cultura.

Por isso, num ambiente de convergência mediática, se a nação é um lugar de construção simbólica e de identidades, a apropriação e indigenização dos conteúdos pela audiência de determinado país, pode ser uma via para a participação do Estado-Nacional na construção de uma narrativa universal e transnacional que auxilia a estratégia de afirmação da sua identidade nacional e inserção no mundo. E o exemplo de Angola é bem ilustrativo, pois ao fim de mais de 40 anos de recepção de novelas brasileiras, ela tece sua cosmovisão através da própria narrativa ficcional assente no seu repertório cultural e identitário. Portanto, as narrativas audiovisuais, estruturadas a partir da história, geografia, biologia e das instituições produtivas e reprodutivas constituem factor fundamental na produção imaterial das sociedades contemporaneias hoje interligadas em rede, onde o expectador tradicional graças ao desenvolvimento das novas tecnologias de comunicação foi convertido simultaneamente em novo ente, o “prossumidor”, ou seja produtor e consumidor simultaneamente.

Portanto, como podemos observar, Mcluhan defendia nos longínquos anos da década de 1960 a necessidade de um maior envolvimento e participação da audiência na produção narrativa, facto tornado hoje realidade graças ao advento das novas tecnologias e das plataformas digitais. As narrativas transmidiáticas constituem uma ruptura de velhos paradigmas que convertiam a audiência em consumir passivo convertendo-o em protagonista na construção da realidade quotidiana através da produção de conteúdos que são divulgados a partir das mais variadas plataformas hoje existentes. A frequente conflitualidade entre os usuários das redes sociais e os poderes públicos e os proprietários dos meios de comunicação de massa expressam a profundidade dessa mudança de paradigmas. Pois, como defende Paula Sibilia, “Aos poucos, nossas narrativas vitais foram abandonando as páginas dos romances clássicos e dos folhetins… Para explorar novos espelhos identitários. As informações então migrando para o universo digital onde o ver e o ouvido monopolizam as pesquisas na eliminação das distâncias e das fronteiras que separam indivíduos, povos e nações inteiras.

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Televisão e o poder suave na construção da identidade (II) https://cefojor.co.ao/2020/10/29/televisao-e-o-poder-suave-na-construcao-da-identidade-ii/ Thu, 29 Oct 2020 14:53:44 +0000 https://cefojor.co.ao/?p=5928 Por Augusto Alfredo – Mestre em Comunicação

Os elementos da cultura de um país, os valores políticos e a legitimidade da sua política externa, segundo o professor americano de Harvard Joseph Nye, constituem a fonte Soft Power, capaz de atrair a simpatia de outros povos. A música, a dança, a escultura, a literatura e todas as manifestações culturais e artísticas representam a primeira fonte do exercício da hegemonia na relação entre povos e países.

Neste grupo, podemos incluir outros elementos que podem ditar a hegemonia de um país. Por exemplo, referindo-se ao Soft Power da China no continente africano, o professor brasileiro de Relações Internacionais, Williams Gonçalves, diz que “a China tem sido muito eficiente no uso do seu Soft Power” (GONÇALVES, 2010, p.533). E, a seguir, descreve as várias acções levadas a cabo pelo Governo da República Popular da China para o fortalecimento das suas relações com os africanos: As universidades chinesas têm acolhido estudantes africanos em larga escala, assim como os chineses tem sido muito activos na formação de técnicos africanos.

Além disso, os chineses têm espalhado “Institutos Confúcio” pelo continente africano, promovendo o conhecimento da sua cultura e ensinando a língua chinesa. Levando-se em conta a grande presença permanente de chineses e a necessidade sentida pelos comerciantes africanos de se adaptarem aos hábitos e costumes dos chineses para aumentarem as suas vendas, é possível dizer que tem havido grande influência cultural da China no continente em geral (GONÇALVES, 2010, p.533). Já no segundo escalão, posiciona-se o respeito aos direitos humanos plasmados na Carta Universal dos Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas.

A exaltação e a defesa do direito à vida, a equidade na distribuição das oportunidades e de acesso aos bens representam sempre um motivo de atracção e sedução do outro no contexto das relações internacionais. Finalmente, a legitimidade da sua política externa avaliando com isenção e equidistância e posicionando-se de forma coerente e justa em disputas que envolvam estados nacionais constitui um chamariz para novas alianças em torno de si e da sua causa.

A produção audiovisual enquadra-se, assim, no primeiro escalão das fontes do Soft Power encerrando um poder incomensurável, sendo capaz de paralisar um país inteiro para assistir o desfecho de uma telenovela. Por exemplo, nesse quesito, as telenovelas brasileiras têm sido bemsucedidas em vários países mesmo aqueles cuja cultura e língua, à priori, são tidas como bem diferentes da do Brasil. Cenas da telenovela brasileira apaixonam e emocionam o público que se identifica vendo neles eventos da sua quotidianidade. O êxito de exportações de telenovelas gerou impactos culturais e sociais imensos no mundo inteiro, prova cabal de seu poder suave em nível Global. A novela Escrava Isaura, por exemplo, foi vista por 450 milhões de chineses. A atriz uruguaia Natalia Oreiro é considerada uma das mulheres mais admiradas na Rússia e, em Israel, por conta de suas novelas. O maior mercado de rua que Luanda (Angola) já teve chama-se Roque Santeiro por conta do sucesso da novela brasileira no país (BALLERINI, 2017, p. 09).

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